Goiânia, 07 de novembro de 2005.

"MORREU SEM TER VIVIDO": AMBIGUIDADES DO NATIMORTO

Marisa Monticelli

Pesquisa qualitativa tendo por objetivo identificar os significados que trabalhadoras de enfermagem de alojamento conjunto possuem a respeito do recém-nascido, tomando-se como parâmetros dois rituais de cuidado: o manuseio do corpo morto do neonato e a prática de colocação de brincos nas meninas. A sustentação teórica ancorou-se no âmbito conceitual da antropologia simbólica e da antropologia do nascimento. A metodologia envolveu observação participante e entrevista etnográfica. Participaram do estudo 19 trabalhadoras de nível médio e elementar. A análise dos dados foi feita com base na Etnoenfermagem. O projeto de pesquisa foi submetido ao parecer do Comitê de Ética. Os resultados mostraram que os significados que as trabalhadoras possuem sobre este “ser” que acaba de vir ao mundo, estão imersos em conteúdos simbólicos que emanam sentidos de ambigüidade. Primeiramente, com relação ao manuseio do corpo do bebê que nasce morto, o que se observa, do ponto de vista das trabalhadoras, é que o fato de não ter sobrevivido significa que não se tornou concreto, e isto leva à desvalorização do recém-nascido, enquanto sujeito de relações afetivas. Se o bebê “morreu sem ter vivido”, sua condição, enquanto ser humano, é terrivelmente incerta. Sob esta ótica, possui apenas existência física, não sendo ainda reconhecido enquanto um novo cidadão com existência social e política. Por outro lado, o ritual de colocação de brincos, uma prática realizada pelas trabalhadoras na própria unidade, de modo quase furtivo, focaliza outra dimensão dos significados, em que a falta de sensação dolorosa do neonato é colocada em destaque. Tanto para as famílias quanto para as trabalhadoras, existe uma representação de que só se deve colocar brincos em meninas (uma prática cultural) enquanto ela é recém-nascida, caso contrário, não suportará a dor. Esta compreensão leva a que o ritual adquira uma aura de “normalidade” dentro das paredes do alojamento, justificando simbolicamente a prática deste tipo de intervenção em ambiente hospitalar. As conclusões levam a argumentar que tais representações interferem diretamente na maneira como a enfermagem desempenha o seu processo de cuidar de recém-nascidos, puérperas e suas famílias em alojamentos conjuntos de maternidades.

Correspondência para: Marisa Monticelli, e-mail: marisa@nfr.ufsc.br