VIVÊNCIAS DO PARTO NORMAL INSTITUCIONALIZADO DE MULHERES DE CUIABÁ
Neuma Zamariano Fanaia Teixeira
Wilza Rocha Pereira
A experiência de mais de vinte anos em assistência e ensino na área obstétrica, mostrou-nos que, nos últimos anos, houve um crescente desestímulo ao parto normal no Mato Grosso sendo este Estado, em 1998, considerado um dos recordistas nacionais nos partos cirúrgicos. Esta associação evidencia-se, sobretudo pela cultura da cesárea, comumente associada ao parto sem dor. É culturalmente difundida pelos profissionais da saúde que detém o poder de modular e influenciar as demandas sobre as necessidades de saúde da população. A partir dessas considerações iniciais, o objetivo desta pesquisa foi analisar, a partir dos discursos de mulheres da periferia de Cuiabá-MT, alguns aspectos culturais que atravessaram as suas vivências quando se submeteram ao parto normal em instituição hospitalar do SUS. Foi desenvolvida uma pesquisa qualitativa, cujo referencial téorico-metodológico foi a Teoria das Representações Sociais e a coleta dos dados foi feita através de entrevistas, no domicílio das dez mulheres participantes do estudo e o critério de inclusão, foi ter tido parto normal em hospital do SUS. Como resultados, pudemos constatar que, dos aspectos que atravessaram as vivências dessas mulheres, vários estavam relacionados, principalmente, com um fator que permeou o discurso de praticamente todas as entrevistadas, qual seja, o medo da dor do parto, por ser este culturalmente difundido entre todas as mulheres. O hospital foi associado ao melhor lugar para ter um filho, como se percebe nas vivências de mulheres que se submeteram ao parto normal no hospital, porém contraditoriamente, também revelou-se como o pior lugar, onde há sofrimento, abandono, medo e angústia. As mulheres perceberam, neste espaço, de forma mais aguda, a hostilidade e impaciência dos profissionais de saúde, mesmo quando estas não eram verbalmente ou claramente manifestadas. Concluímos que dos aspectos mais significativos para todas mulheres durante o processo institucional da parturição estava associado a uma cultura institucional que revelou um atendimento pautado por violência velada, expressa em sofrimentos desnecessários e em desrespeito aos princípios do Programa de Humanização do Parto e Nascimento do Ministério da Saúde. Finalmente podemos afirmar que há muitos investimentos ainda a serem feitos para melhorar a qualidade da assistência ao parto e ao nascimento normais nos locais estudados.
Correspondência para: Neuma Zamariano Fanaia Teixeira, e-mail: neumazam@terra.com.br
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