DAS MIL E UMA NOITES ÀS FÁBULAS DE ESOPO: LÚDICO AJUDA A FAZER CIÊNCIA
Rosa Maria Godoy Serpa da Fonseca
Trata-se de um relato do uso de histórias e outros textos como estratégias facilitadoras em Oficinas de Trabalho, visando estimular e facilitar a reflexão acerca dos temas ou das situações abordadas. Levando-se em conta que as histórias, piadas e outros textos lúdicos provocam sentimentos, reproduzem a visão de mundo prevalente num determinado momento histórico, numa determinada sociedade, analisá-los visando compreender seus aspectos ideológicos e conceituais, pode incrementar e estimular a reflexão e a discussão de temas ou questões que comumente são objeto da ciência. As Oficinas de Trabalho têm como principal característica constituir uma ação pedagógica participativa por excelência e se realiza ancorada em pressupostos que vão além da participação, em busca da autonomia de pensar e da necessidade de ampliação da auto-estima como condição básica para tal empoderamento. Nesse sentido e sendo de fácil compreensão porque baseadas no senso comum, as histórias constituem um instrumental excelente para estimular a participação efetiva, ou seja, para que todos tenham espaço e se sintam à vontade para expressar opiniões e sentimentos, tornando-os, com isso, reconhecidamente portadores de saber e de conhecimento. Neste trabalho é relatado o uso de histórias populares, fábulas, piadas e situações de humor em Oficinas de Trabalhos sobre diferentes temas, a saber: A cigarra e a formiga e o processo de trabalho em saúde; O terceiro sheik (Mil e uma noites) e o saber-ser como competência profissional; Sócrates, Veríssimo e o conhecimento; O horror de conhecer (Fausto) e a ciência como produto social, entre outras. A avaliação de tais oficinas revelou que o uso das histórias e dos textos humorísticos propiciou um ambiente descontraído, divertido e participativo superando a dicotomia professor-aluno; facilitou a expressão de sentimentos, posicionamentos e opiniões; ampliou a articulação entre o saber do senso comum e o conhecimento científico; tornou o tema (por mais complexo e difícil que fosse) mais próximo do entendimento e da compreensão dos participantes. As conseqüências disso são constatadas também na ampliação da compreensão do conhecimento como uma contínua relação entre um ser desejante (de conhecer) e o objeto de desejo (a ser conhecido) e que, no contexto de produção do conhecimento científico, tal relação, para acontecer, não precisa do ambiente austero e frio dos meios acadêmicos tradicionais ou de práticas pedagógicas centradas no saber docente.
Correspondência para: Rosa Maria Godoy Serpa da Fonseca, e-mail: rmgsfon@usp.br
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