MEU RECORDAR COMO SOBRINHA DE UMA PORTADORA DE ALZHEIMER
Orcelia Pereira Sales
“Filha, antigamente eu sabia fazer ponto cruz e crochê, se eu me lembrasse como faz eu iria te ensinar”. É com essa frase que me recordo do início da doença de Alzheimer na vida da minha tia. Raimunda Pereira de Aguiar como era chamada ou simplesmente “tia Raimunda” sempre foi uma mulher prendada, cozinhava, bordava, criava os filhos e cuidava dos sobrinhos com dedicação. Era hospitaleira sua casa servia de abrigo para muitas pessoas e convivia bem em sociedade. Freqüentava uma igreja protestante sendo fervorosa nas orações. A doença: Aos poucos minha tia começou a esquecer as panelas no fogo, colocava muito ou pouco tempero na comida, pegava do chão papeis ou qualquer outra coisa que lhe chamasse a atenção e guardava tudo em baixo do colchão tinha um ciúmes excessivo desses objetos. Aos poucos começou a destratar o seu esposo, não dava mais importância para a aparência, andava sempre inquieta às vezes era agressiva. Nesse período ninguém da família desconfiou que ela estava sendo acometida por uma doença, pensávamos que tudo isso fosse pelo excesso de dedicação a igreja que costumava freqüentar. Os sobrinhos diziam: “A tia Raimunda está muito caduca!”. Hoje sei que isso era apenas o início da doença de Alzheimer com o tempo foi necessário que não mais deixássemos que ela saísse de casa sozinha. O cuidar: Com tudo isso foi necessário que minha outra tia e irmã dela assumisse a responsabilidade de cuidadora pois as filhas mulheres estavam casadas morando em outro estado foi nessa época que levaram-na a um médico que diagnosticou através dos sintomas a doença de Alzheimer. Tia Raimunda então passou a morar na casa dessa minha tia, pois já não reconhecia seus filhos e os demais parentes. Algumas modificações foram realizadas na casa porque ela andava de um lado para o outro sem noção de espaço ou tempo, não conseguia alimentar-se sozinha ou fazer as suas necessidades diárias sem ajuda. Com o tempo foi necessário ficar acamada. Minha tia sempre foi cuidada com muito amor e paciência e acredito que isso tenha levado a permanecer tanto tempo entre nos, foram 15 anos com a doença até o dia que foi “encontrar com Deus” como ela mesma costumava dizer antes da doença. Por muitas vezes ajudei na hora do banho, alimentação, mudança de posição na cama e nesses momentos refletia sobre essa situação e pensava: “Um dia quero entender essa doença”. Ao olhar para trás percebo o quanto foi valiosa minha convivência com ela. Considerações finais: Qu
Correspondência para: Orcelia Pereira Sales, e-mail: orcelia@bol.com.br
|