“Das comunidades às salas de aula: cuidados auditivos para todas as crianças” : 3/3 – Dia Mundial da Audição 2026

O Dia Mundial da Audição é um evento global, anualmente celebrado em 3 de março, que objetiva gerar conscientização sobre a perda auditiva, a promoção do cuidado com os ouvidos e a audição e apelar à ação para solucionar a condição e os problemas a ela relacionados.
A cada ano é abordado um tema específico sobre o qual a Organização Mundial da Saúde e seus parceiros desenvolvem atividades. Para 2026, o mote é “Das comunidades às salas de aula: cuidados auditivos para todas as crianças”.
Por que focar na audição infantil?
Globalmente, crianças com problemas da audição em idade escolar frequentemente permanecem sem diagnóstico e sem acesso aos serviços necessários (World report on hearing, 2021). A perda auditiva afeta cerca de 90 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos em todo o mundo (Global burden of disease study, 2021). No entanto, ela geralmente permanece sem ser detectada, especialmente em contextos de poucos recursos.
Causas comuns, preveníveis e tratáveis — como otite média com efusão (OME), otite média supurativa crônica (OMSC) e acúmulo de cera no ouvido — continuam sendo muito prevalentes em crianças. Às vezes, a perda auditiva começa de forma insidiosa, mas progride e piora com o tempo.
Se não tratada, essa condição não afeta apenas a capacidade da criança de ouvir, mas também impacta significativamente a fala, a linguagem, o desenvolvimento cognitivo e social, levando a piores resultados educacionais, menores perspectivas de emprego e desvantagens econômicas a longo prazo.
A campanha deste ano centra-se em dois imperativos:
– Prevenir a perda auditiva infantil evitável ao garantir a identificação precoce e o tratamento de crianças com problemas de ouvido ou audição;
– Escolas e comunidades são pontos de partida naturais para alcançar crianças, pais e professores. Ao integrar os cuidados auditivos nos programas de saúde escolar e saúde infantil, é possível ajudar as crianças a ouvir, aprender e ter sucesso.
Mensagens-chave para 2026:
– Cerca de 90 Milhões de crianças de 5 a 19 anos vivem com perda auditiva.
– Mais de 60% da perda auditiva infantil é evitável por meio de medidas de saúde pública simples e de baixo custo.
– Entre aqueles que vivem com doenças de ouvido ou perda auditiva, a identificação e o tratamento precoces são cruciais para prevenir impactos a longo prazo no desenvolvimento, na educação e nas oportunidades futuras.
– A integração de programas sistemáticos de triagem e intervenção precoce nos planos de saúde escolar e saúde infantil pode garantir melhores resultados para crianças com problemas de ouvido ou audição.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), na região da Américas, em torno de 217 milhões de pessoas vivem com perda auditiva, ou seja, 21,52% da população. Estima-se que até 2050 esse número possa subir para 322 milhões.
No Brasil, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde, 2,2 milhões de pessoas possuem deficiência auditiva. A falta de informações precisas e atitudes estigmatizantes em relação às doenças do ouvido e à perda da audição muitas vezes impedem o acesso a cuidados para essas doenças. Mesmo entre os prestadores de cuidados de saúde existe falta de conhecimento sobre prevenção, identificação precoce e tratamento desses agravos, dificultando sua capacidade de fornecer a assistência necessária.
O ouvido é um sistema ósseo composto por canais por onde passam líquidos que estimulam as células sensoriais do equilíbrio e da audição. Qualquer alteração nesse processo pode dificultar a capacidade de ouvir ou provocar problemas auditivos e de estabilidade. O acúmulo de cera pode, por exemplo, bloquear a passagem do som. Inflamações também comprometem a percepção sonora.
As causas mais comuns de perda de audição na infância são de origem genética, mas também podem estar associadas a outros fatores de risco, como peso muito baixo ao nascimento, asfixia neonatal, infecções congênitas da mãe durante a gestação, etc. Entre as causas congênitas e adquiridas, as infecções são responsáveis por 25% dos casos de surdez.
Sífilis, rubéola, citomegalovírus, toxoplasmose, sarampo, caxumba, infecções do ouvido ou do sistema nervoso central, como as meningites bacterianas, podem causar a surdez. São infecções preveníveis com a vacinação da gestante e/ou da criança, seja pelo Programa Nacional de Imunizações do Sistema Único de Saúde ou pela rede privada.
Outras causas adquiridas como alcoolismo materno, diabetes gestacional e toxemia gravídica podem ser prevenidas com um bom acompanhamento pré-natal e durante o parto. Fatores também relacionados incluem, ainda, casos de surdez na família e uso de medicamentos tóxicos ao ouvido pelo recém-nascido.
No âmbito do Ministério da Saúde, em 2004 foi instituída a Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva, alterada em 2017 pela Portaria de Consolidação nº 3.
Garantida pela Lei Federal nº 12.303, desde 2010, a Triagem Auditiva Universal (TAN), conhecida como ”teste da orelhinha” é um direito de todo recém-nascido.
A TAN precisa ser realizada, preferencialmente, nos primeiros dias de vida (24h a 48h) na maternidade e, no máximo, durante o primeiro mês de vida, a não ser em casos quando a saúde da criança não permita a realização dos exames. No caso de nascimentos que ocorram em domicílio, fora do ambiente hospitalar, ou em maternidades sem triagem auditiva, a realização do teste deverá ocorrer no primeiro mês de vida. O exame é simples, indolor e não invasivo.
Crianças que apresentam alteração no teste são encaminhadas para diagnóstico completo. Caso seja confirmada a perda permanente, a criança passa pela adaptação de aparelhos de amplificação sonora e terapia fonoaudiológica. Neste momento, é essencial o trabalho conjunto de fonoaudiólogos e otorrinolaringologistas.
Com o objetivo de oferecer orientações às equipes multiprofissionais para o cuidado da saúde auditiva na infância nos diferentes pontos de atenção da rede, foram publicadas as ‘Diretrizes de Atenção da Triagem Auditiva Neonatal‘ – um conjunto de ações que devem ser realizadas para a atenção integral à saúde auditiva na infância: triagem, monitoramento e acompanhamento do desenvolvimento da audição e da linguagem, diagnóstico e (re) habilitação.
Os serviços devem estar integrados à Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência e às ações de acompanhamento materno-infantil. Também é de extrema importância a articulação, capacitação e integração com a atenção básica para garantir o monitoramento e acompanhamento do desenvolvimento da audição e da linguagem, e para a adesão aos encaminhamentos para a atenção especializada.
Outras causas de problemas auditivos:
Entre os jovens, as causas da perda de audição estão relacionadas à exposição a níveis elevados de pressão sonora. Atualmente, os hábitos recreacionais, como o uso de fones de ouvido com volume alto por tempo prolongado, são os ‘vilões’ da saúde auditiva.
Esses hábitos podem causar a ‘perda auditiva escondida’, que ainda não se mostra perceptível no exame de audiometria, mas que já se apresenta com redução de células ganglionares do nervo auditivo – responsáveis por transformar a energia sonora em impulsos nervosos – e resultam na dificuldade de compreender a fala.
Outras causas muito comuns de perda auditiva em jovens e adultos são de origem metabólica, principalmente em pessoas com diabetes, além de outras doenças infecciosas, como a meningite e a caxumba.
O adoecimento auditivo pode, ainda, ser provocado pela exposição laboral a fatores como vibração, calor e substâncias químicas, embora muito comumente o ruído seja o maior responsável pela condição.
A perda auditiva relacionada ao trabalho é considerada uma das doenças mais frequentes na população trabalhadora estando presente em diversos ramos de atividade, entre eles, siderurgia, metalurgia, gráfica, têxtil, construção civil, agricultura, transportes, telesserviços e outros.
Diversos estudos mostram que outros agentes causais (químicos ou ambientais), atuando de forma isolada ou concomitante à exposição ao ruído, podem também ocasionar danos à audição. Dentre eles a exposição à vibração (britadeiras, por exemplo), calor (caldeiras, por exemplo) e substâncias químicas (combustíveis e solventes, por exemplo).
Prevenção da perda auditiva:
Em crianças, quase 60% da perda auditiva podem ser evitadas por meio de medidas como imunização para prevenir infecções como rubéola e meningite, melhoria da atenção materna e neonatal e triagem e tratamento precoce de otite média — doença inflamatória do ouvido médio.
Em adultos, o controle de ruído, a escuta segura e a vigilância de medicamentos ototóxicos, juntamente com a adequada higiene do ouvido, podem ajudar a manter uma boa audição e reduzir o potencial de perda auditiva.
No que diz respeito às atividades laborais, o diagnóstico precoce pode evitar o agravamento da perda auditiva apresentada pelo trabalhador. Além disso, norteará a busca ativa de novos casos naquele ambiente de trabalho e permitirá que medidas de proteção individual e coletiva sejam adotadas, evitando o desencadeamento de perda auditiva em trabalhadores e seu agravamento naqueles que já estão adoecidos.
Fontes:
Coalition for Global Hearing Health
Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH)
Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo
Fundação Jorge Duprat Figueiredo, de Segurança e Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO)
Ministério da Saúde
Ministério da Saúde 2
Nota Especial da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)
Organização Mundial da Saúde (OMS)
Prefeitura da Cidade de São Paulo
Publicado: Thursday, 01 de January de 1970