Infectologista alerta pais sobre a tríplice ameaça do verão à saúde infantil

Com a chegada do verão (21/12), a saúde infantil se torna uma pauta de urgência máxima. As altas temperaturas e o aumento das chuvas criam o ambiente ideal para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, responsável pela transmissão de dengue, Zika e chikungunya. No entanto, o risco para as crianças vai além das arboviroses: a circulação de vírus respiratórios e a queda na cobertura vacinal reforçam a necessidade de uma estratégia preventiva integral.

O infectologista pediátrico do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Márcio Nehab, alerta que pais e responsáveis devem manter vigilância em três frentes: controlar arboviroses, prevenir infecções respiratórias e garantir a atualização do calendário vacinal infantil. A orientação do especialista também destaca sinais de alerta específicos, medidas de prevenção em casa e cuidados especiais durante viagens e férias escolares, tornando a informação essencial para proteger crianças neste período crítico.


IFF/Fiocruz: Qual é o erro mais comum que os pais cometem ao tentar diferenciar uma febre de dengue de uma gripe simples no início dos sintomas?

Márcio Nehab: Confundem a ausência de sintomas respiratórios relevantes como algo pouco importante e interpretam a febre alta isolada como gripe, quando na fase inicial da dengue o quadro costuma ser dominado por febre alta de início abrupto, mal-estar intenso e dor no corpo. Essa falta de atenção ao padrão clínico inicial leva muitos a tratarem como virose respiratória algo que merece vigilância mais próxima.

IFF/Fiocruz: Na sua experiência, qual sintoma em crianças com dengue ou Zika exige a ida imediata ao hospital, sem espera?

Márcio Nehab: Dor forte na barriga que não passa; vômitos muitas vezes seguidos; inchaço ou sensação de líquido no peito ou na barriga; sangramentos pelo nariz, gengiva ou manchas vermelhas na pele; criança muito parada, muito irritada ou diferente do habitual; barriga aumentada e dolorida ao toque; exames mostrando que o sangue está ficando mais “concentrado” e as plaquetas estão caindo.

IFF/Fiocruz: Com a circulação simultânea de dengue e Covid-19/influenza, existe um risco aumentado de coinfecção em crianças, como isso pode complicar o diagnóstico?

Márcio Nehab: Quadros respiratórios passam a se misturar com quadros febris sem sintomas respiratórios claros. A criança pode começar com tosse ou coriza, sugerindo gripe ou Covid, mas ao mesmo tempo estar desenvolvendo dengue. Isso atrasa a suspeita de dengue porque a presença de sintomas respiratórios faz os cuidadores descartarem a doença. Coinfecções também podem deixar a febre mais prolongada e o mal-estar mais intenso, confundindo ainda mais o diagnóstico inicial.

IFF/Fiocruz: O que você diria sobre a circulação do Vírus Sincicial Respiratório (VSR) em crianças pequenas, especialmente neste final de ano? A prevenção é mais eficaz que o tratamento?

Márcio Nehab: O VSR permanece como um dos principais agentes de bronquiolite em bebês, mas os dados recentes do InfoGripe mostram que não há aumento relevante nesta época do ano. A prevenção se tornou muito mais efetiva com a vacinação de gestantes com Abrysvo e com a proteção direta do nirsevimabe para bebês prematuros. Evitar contato com recém-nascidos quando há qualquer sintoma respiratório continua sendo uma medida essencial, pois reduz significativamente o risco de transmissão.

IFF/Fiocruz: Arboviroses são doenças virais transmitidas por artrópodes, como mosquitos e carrapatos. No Brasil, as mais comuns são dengue, Zika e chikungunya. Qual a diferença entre elas?

Márcio Nehab: Arboviroses podem ser transmitidas por vários artrópodes, mas no Brasil as que importam para a infância não envolvem carrapatos. Dengue, Zika e chikungunya dependem do Aedes aegypti. Na teoria elas têm diferenças clínicas, porém na prática o início dos quadros é muito parecido, com febre, mal-estar e dor no corpo, o que torna difícil definir a etiologia apenas pelos sintomas. A confirmação costuma depender do contexto epidemiológico e dos testes específicos. A resposta de vacinação e políticas públicas envolve ampliar o acesso à vacina contra dengue, fortalecer o controle do Aedes e manter vigilância integrada para identificar surtos precocemente.

IFF/Fiocruz: Qual a importância da vacina contra a dengue, disponível no SUS?

Márcio Nehab: A vacina contra dengue reduz de forma significativa o risco de formas graves e internações. Quando a criança recebe apenas a primeira dose e não retorna para a segunda, a proteção fica incompleta e abaixo do esperado. Isso mantém a vulnerabilidade individual e atrapalha o impacto coletivo esperado pelo programa. Aguardamos ansiosamente pela vacina recém-aprovada para pessoas acima de 12 anos contra a Dengue pelo Butantã.

IFF/Fiocruz: Qual doença que estava praticamente erradicada e que agora corre o maior risco de retornar no Brasil devido à queda das taxas de vacinação infantil?

Márcio Nehab: Principalmente o sarampo, que já havia sido controlado e até recebeu certificado de eliminação, mas voltou a circular com surtos em diferentes regiões por causa da queda da cobertura vacinal em crianças. A mesma redução nas vacinas infantis também reacende o risco de retorno de outras doenças graves como poliomielite, difteria e coqueluche.

IFF/Fiocruz: O que os pais que não levaram seus filhos para vacinar devem fazer imediatamente para recuperar essa proteção?

Márcio Nehab: Procurar uma unidade de saúde e atualizar o calendário imediatamente, sem necessidade de reiniciar esquemas. A criança recebe as doses faltantes conforme a idade e o histórico, recuperando a proteção de forma segura e rápida.

IFF/Fiocruz: Qual é o principal mito sobre vacinas que você gostaria de desmistificar aos pais?

Márcio Nehab: A ideia de que vacinas causam doenças graves é o mito mais persistente. As reações reais costumam ser leves e passageiras, enquanto as doenças que as vacinas previnem podem gerar complicações duradouras e impacto significativo na vida das crianças.

IFF/Fiocruz: Além da água parada, qual item comum dentro de casa se torna, nesta época do ano, o maior criadouro de mosquitos Aedes aegypti que as famílias ignoram?

Márcio Nehab: Caixas d’água mal vedadas, ralos pouco usados, bandejas de ar-condicionado, bandeja traseira da geladeira, pratinhos de plantas, recipientes de armazenamento de água, calhas entupidas, lonas acumulando água, baldes e bacias esquecidos no quintal, garrafas destampadas, restos de construção que acumulam água, pneus, brinquedos no quintal, tambores de coleta de água de chuva e reservatórios de animais domésticos mal higienizados.

IFF/Fiocruz: Qual é o erro mais grave que os pais cometem ao medicar a febre em casa antes de procurar o médico?

Márcio Nehab: Usar anti-inflamatórios, como ibuprofeno ou nimesulida, logo no início da febre, porque podem piorar infecções como dengue e atrasar a percepção de sinais de gravidade.

IFF/Fiocruz: Com o início do verão e do período de férias escolares, que conselhos práticos você gostaria de compartilhar com pais e cuidadores para reforçar os cuidados em casa?

Márcio Nehab: Hidratação frequente, mesmo sem sede; ambiente ventilado e roupas leves; protetor solar reaplicado ao longo do dia; repelente adequado à idade usado de forma contínua; atenção redobrada a água parada e recipientes que acumulam líquido; cuidados com exposição ao sol nos horários mais quentes; observação rigorosa de febre, prostração e vômitos em crianças

IFF/Fiocruz: Para concluir, quais são os riscos adicionais à saúde e à segurança das crianças durante o verão, especialmente em razão da mudança de rotina, das viagens e da menor supervisão?

Márcio Nehab: Os riscos de acidentes aumentam muito nas férias. Afogamento é a principal causa externa de morte infantil no verão e exige supervisão constante e próxima em qualquer ambiente com água. Crianças deixadas sozinhas em casa ficam mais expostas a quedas, queimaduras, ingestão de medicamentos e acidentes elétricos. Vale incluir atenção ao transporte, já que viagens longas elevam o risco de desidratação e insolação. Também é útil reforçar o cuidado com a alimentação fora de casa, pois surtos de diarreia aumentam nesta época.


Fonte:

Agência Fiocruz de Notícias



Publicado: Thursday, 01 de January de 1970

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