“Vamos manter a região das Américas livre da poliomielite” : 24/10 – Dia Mundial da Poliomielite 2026
Celebrado em dia 24 de outubro anualmente, o Dia Mundial da Poliomielite destaca os esforços globais para erradicar a doença e a importância da vacinação na proteção das crianças. É também uma oportunidade para ressaltar o papel fundamental de mães, pais, cuidadores, profissionais de saúde e voluntários em garantir que as vacinas contra a poliomielite cheguem às crianças e às suas comunidades — especialmente àquelas que vivem em áreas remotas, de difícil acesso ou em regiões de fronteira.
A Poliomielite (paralisia infantil ou polio) é uma doença contagiosa aguda causada pelo poliovírus. Karl Landsteiner e Erwin Popper foram os descobridores do vírus que provoca a enfermidade, em 1908.
Vivenciar a infância durante a primeira metade do século XX foi crescer sob a ameaça da poliomielite. Naquela época, a doença que ataca o sistema nervoso e pode provocar paralisia espinhal e respiratória matava ou paralisava mais de 500 mil pessoas anualmente no mundo – sem falar nas tantas outras que ficaram com sequelas que dificultavam sua mobilidade.
No Brasil, diversos municípios eram assolados pelo problema. Durante uma das piores epidemias da doença já registradas no país, na cidade do Rio de Janeiro em 1953, foram identificados 20 casos de poliomielite a cada 100 mil habitantes. Sem cura e com surtos cada vez mais constantes, a necessidade de uma vacina se tornou urgente.
Após extensos ensaios clínicos, a vacina injetável com o vírus inativado contra o poliovírus (VIP), foi desenvolvida por Jonas Salk e licenciada nos Estados Unidos em 1955, representando um dos maiores avanços da história da saúde pública global no combate e controle da paralisia infantil.
Em 1960, a vacina oral contra a poliomielite (VOP), de vírus vivos atenuados, desenvolvida por Albert Sabin, foi licenciada nos Estados Unidos. Porém, a contribuição de Sabin começou bem antes da criação da vacina. Seus estudos ajudaram a esclarecer aspectos da infecção pelo poliovírus, que se multiplica no intestino, e o papel da transmissão fecal-oral em sua cadeia de disseminação. Essa compreensão orientou sua pesquisa: uma vacina administrada por via oral poderia induzir imunidade intestinal no principal local de replicação do vírus.
A vacina oral passou a ser utilizada em larga escala no início da década de 1960, tornando-se uma das principais ferramentas de combate à poliomielite.
Embora a vacina inativada desenvolvida por Salk fosse extremamente eficaz e segura, o imunizante de Sabin se provou revolucionário. Possuía menor custo de produção e distribuição, e era muito fácil de aplicar.
Por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, foram adotados os Dias Nacionais de Vacinação contra a poliomielite, em 1980 – uma estratégia de vacinação em massa que passou a ocupar papel central nas ações brasileiras de controle da doença. Naquele ano, o Brasil registrou 1.290 casos confirmados; em 1981, foram 122, uma redução de aproximadamente 90,5%. O resultado não significou que o trabalho estivesse concluído: houve novos surtos durante a década, incluindo 612 casos em 1986, o que apontava a necessidade de manter tanto a estratégia de imunização quanto a vigilância epidemiológica ativa.
Nesse contexto, nasceu um dos personagens mais conhecidos da saúde pública brasileira: o Zé Gotinha, criado em 1986 pelo artista plástico Darlan Rosa para as campanhas de vacinação contra a poliomielite. A figura ajudou a tornar as campanhas mais próximas das famílias e acabou se tornando um símbolo da imunização no país.
Entre 1968 e 1989, o Ministério da Saúde contabilizou 26.827 casos confirmados de poliomielite. O último caso causado pelo poliovírus selvagem no país ocorreu em março de 1989, no município de Sousa, na Paraíba. Em 1994, a Região das Américas foi certificada como livre da circulação do poliovírus selvagem. O último caso notificado ocorreu no Peru, em 1991.
As gotinhas, portanto, fizeram parte de algo muito maior: equipes de vacinação, mobilização das famílias, comunicação pública e acompanhamento dos casos suspeitos. A história brasileira da pólio é também a história de como um programa de imunização pode levar uma descoberta científica a milhões de pessoas.
A vacina oral foi usada por décadas e ajudou a reduzir a poliomielite em todo o mundo. Porém, com a queda dos casos causados pelo poliovírus selvagem, tornou-se necessário considerar os riscos raros associados ao vírus vacinal atenuado. Em comunidades com baixa cobertura vacinal, o vírus derivado da vacina pode circular por períodos prolongados e sofrer alterações capazes de causar doença. Por isso, as estratégias de vacinação precisam ser adaptadas conforme o cenário epidemiológico.
Assim, desde 4 de novembro de 2024, a vacinação de rotina contra a poliomielite passou a utilizar exclusivamente a vacina inativada injetável, a VIP, aplicada aos 2, 4 e 6 meses de idade e um reforço aos 15 meses. A mudança está de acordo com a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e faz parte do processo de erradicação mundial da doença.
O uso rotineiro das gotinhas foi encerrado, mas não sua importância histórica. Manter altas coberturas vacinais continua essencial, pois a poliomielite ainda não foi erradicada no mundo e o poliovírus pode voltar a circular onde encontrar pessoas desprotegidas. Infelizmente, a doença provocada pelo vírus selvagem permanece endêmica no Afeganistão e no Paquistão.
Informações detalhadas sobre a Poliomielite podem ser encontradas aqui!
Fontes:
Global Polio Eradication Initiative (GPEI)
Instituto Butantan
Ministério da Saúde
Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)
Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)