HTLV: vírus silencioso afeta mais de 1 milhão de brasileiros e exige diagnóstico precoce

O Vírus Linfotrópico de Células T Humanas (HTLV) permanece como um dos maiores desafios de saúde pública no Brasil. Estima-se que 1,1 milhão de pessoas vivam com o vírus no país, mas a grande maioria desconhece o diagnóstico.

Foi o primeiro retrovírus humano oncogênico causador de doença infecciosa a ser descoberto, na década de 1980. Há quatro tipos de HTLV descritos (HTLV-1, HTLV-2, HTLV-3 e HTLV-4) e vários subtipos, sendo o HTLV-1 o principal associado às manifestações clínicas.

Esse vírus infecta principalmente as células do sistema imunológico (LT CD4+) e possui a capacidade de imortalizá-las, fazendo com que percam sua função de defender o organismo e pode permanecer silencioso por décadas.


Avanços no diagnóstico e políticas públicas

No Brasil, os testes sorológicos foram introduzidos a partir de 1993, sendo obrigatórios em todos os bancos de sangue. A triagem para esse agente infeccioso também é realizada durante os processos de fertilização in vitro no país.


O cenário de combate ao vírus mudou drasticamente nos últimos dois anos. Desde a publicação da Portaria GM/MS nº 3.148/2024, a infecção tornou-se um agravo de notificação compulsória, que permite ao Ministério da Saúde mapear a dimensão da epidemia em solo brasileiro. Outro avanço é a inclusão do teste de HTLV no pré-natal.

O objetivo é interromper a transmissão vertical, transmitida de mãe para filho, que ocorre majoritariamente pela amamentação. A recomendação médica orienta que mães soropositivas devem ser orientadas a inibir a lactação, substituindo o leite materno por fórmulas infantis fornecidas gratuitamente pelo governo.


Formas de transmissão:

O contágio do HTLV é semelhante ao de outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). As principais vias são:

– Transmissão vertical (de mãe infectada para o filho) durante a amamentação e, mais raramente, durante a gestação.
– Relação sexual desprotegida (sem uso de preservativo) com parceiro infectado.
– Compartilhamento de seringas e agulhas.


Sintomas:

A maioria das pessoas infectadas pelo HTLV não apresenta sinais e sintomas durante toda a vida. Dos infectados, 10% apresentarão algumas doenças associadas ao vírus, entre as quais: doenças neurológicas, oftalmológicas, dermatológicas, urológicas e hematológicas.

Os sinais e sintomas são específicos para cada tipo de infecção. No caso do HTLV-1, pode ocorrer processo de formação de cânceres e doenças inflamatórias crônicas, tais como leucemia, linfoma e mielopatia, além de outras infecções associadas.

Na Leucemia/Linfoma de células T do Adulto (ATLL ocorre a neoplasia de células, representando uma forma mais agressiva, atingindo de 3 a 5% das pessoas infectadas.

A Mielopatia Associada ao HTLV (HAM), por sua vez, é uma doença inflamatória crônica que atinge a medula espinhal e provoca distúrbios sensitivos que afetam a mobilidade e o controle urinário, dificultando a realização de atividades diárias da pessoa afetada.


Tratamento:

O tratamento é direcionado de acordo com a doença relacionada ao HTLV. O paciente deverá ser acompanhado nos serviços de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) e, quando necessário, receber seguimento em serviços especializados para diagnóstico e tratamento precoce de doenças associadas.

Embora não haja um tratamento curativo para as manifestações neurológicas do HTLV-1 (Mielopatia Associada ao HTLV – HAM), recomenda-se que todo indivíduo acometido seja assistido por equipe multidisciplinar que inclua profissionais médicos (neurologista, infectologista, urologista, dermatologista, oftalmologista), fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, nutricionistas e psicólogos. Nos pacientes que apresentam Leucemia/Linfoma de células T do Adulto (ATLL) o tratamento tem por objetivo alcançar resposta completa ou parcial; porém, ainda não existe consenso entre as opções de primeira linha de tratamento.


O perigo da falta de informação:

De acordo com o infectologista Carlos Brites, a falta de informação é o maior obstáculo. “O paciente pode carregar o vírus por 30 anos sem saber, até que surjam dificuldades para caminhar, que são frequentemente confundidas com o envelhecimento natural ou problemas de coluna”, explica o especialista.

O doutor destaca que o diagnóstico precoce e a fisioterapia especializada são fundamentais para manter a autonomia do paciente. Além do cuidado físico, ele reforça a necessidade de suporte psicossocial para combater o estigma que ainda envolve a doença.


Fontes:

Imagem: Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG)
Ministério da Saúde
Sociedade Brasileira de Infectologia



Publicado: Thursday, 01 de January de 1970

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