“Deficiências decorrentes de envenenamento por picada de cobra: a crise oculta”
O Dia Internacional de Conscientização sobre Picadas de Cobra, comemorado em 19 de setembro, anualmente, foi definido em 2018 pela Global Snakebite Initiative com o objetivo de aumentar a conscientização sobre o impacto mundial do envenenamento por picada de cobra e a necessidade de melhorar a compreensão acerca dos riscos, bem como informar sobre a prevenção, e reconhecer os sintomas para enfrentar as consequências graves que afetam a maioria das vítimas.
No entanto, a conscientização e a ação exigem mais do que apenas um dia ao ano. Enquanto a comunidade global se concentra na implementação da Global Strategy for the Prevention and Control of Snakebite Envenoming da Organização Mundial da Saúde (OMS) para reduzir pela metade as mortes e as incapacidades até 2030, grande parte do trabalho começa nas comunidades, nos hospitais e nos laboratórios de todo o mundo.
Nas Américas, mais de 57.000 pessoas são picadas por serpentes a cada ano, com uma taxa de letalidade de 0,6% e sequelas graves em mais de 3% das vítimas. No entanto, o impacto real na região pode ser ainda maior devido à subnotificação de casos.
Em escala global, mais de 5 milhões de pessoas sofrem picadas de cobras anualmente, resultando em 130.000 mortes e quase 400.000 indivíduos com deficiências permanentes, como limitações de mobilidade, úlceras crônicas ou amputações. Trabalhadores, jovens e crianças de populações rurais carentes são as vítimas mais frequentes.
O Brasil ocupa o terceiro lugar mundial em número de acidentes com cobras, ao lado do Vietnã e atrás apenas da Índia e do Sri Lanka. Desde 2019, ano em que a OMS aprovou a estratégia global contra o ofidismo, o País segue em busca do objetivo estabelecido pela entidade de reduzir em 50% as mortes e incapacidades causadas esse tipo de agravo até 2030.
O acidente ofídico é considerado a mais letal das 20 doenças tropicais negligenciadas listadas pela OMS. Os efeitos do envenenamento no corpo humano podem variar amplamente, provocando desde hemorragias até paralisia neuromuscular e danos a órgãos vitais.
Com o tema: “Deficiências decorrentes de envenenamento por picada de cobra: a crise oculta”, a campanha de 2026 é um chamado à ação para que se obtenham melhores estimativas e uma compreensão mais profunda dessas deficiências, a fim de revelar seu verdadeiro impacto e acompanhar as vítimas, garantindo que suas histórias sejam ouvidas.
Infelizmente, é raro haver o acompanhamento das pessoas afetadas para avaliar as consequências de longo prazo, devido a:
– Acesso limitado a assistência médica oportuna em áreas rurais;
– Falta de conscientização e treinamento dos profissionais de saúde;
– Estigma que desencoraja as vítimas de buscar assistência;
– Instalações assistenciais com recursos insuficientes e limitada capacidade de alcance.
Dentre as deficiências que podem surgir após o acidente, destacam-se:
– Físicas: amputações, infecções, dor, deformidades, mobilidade reduzida;
– Neurológicas: paralisia, danos nos nervos, convulsões, comprometimento cognitivo;
– Psicológicas: transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade.
No Brasil, os acidentes com animais peçonhentos são um desafio significativo para a saúde pública. Com sua rica biodiversidade e clima tropical favorável, o país abriga uma ampla variedade de serpentes, aranhas, escorpiões e outros animais peçonhentos, cujas picadas ou mordidas podem resultar em graves consequências para a saúde humana. Nesse cenário, é essencial conhecer e identificar esses animais para implementar medidas preventivas eficazes e garantir um atendimento adequado às vítimas.
Devido ao alto número de ocorrências, as picadas por cobra foram incluídas na Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças, Agravos e Eventos de Saúde Pública. Assim, todos os casos devem ser notificados ao governo federal imediatamente após a confirmação.
As regiões brasileiras onde há maior taxa de incidência de acidentes ofídicos são a Norte e a Centro-Oeste. Os meses de maior frequência são os quentes e chuvosos, períodos de maior atividade em áreas rurais, cuja população do sexo masculino e faixa etária economicamente ativa (20 a 64 anos) é a mais frequentemente atingida.
Embora a maioria dos acidentes seja classificada clinicamente como leve, a demora no atendimento médico e soroterápico pode elevar consideravelmente a taxa de letalidade. Em 2023, foram registrados 32.595 casos e 143 óbitos.
Esse tipo de acidente pode causar paralisia, impedir a respiração, provocar distúrbios hemorrágicos fatais, insuficiência renal irreversível e danos aos tecidos que levam à deficiência permanente e amputação de membros.
Em contraste com muitas outras condições de saúde complexas, existe tratamento altamente eficaz para o envenenamento por picada de cobra e a maioria das mortes e graves consequências são totalmente preveníveis ao tornar os antivenenos mais amplamente disponíveis e acessíveis.
Os soros antivenenos são seguros, têm alta qualidade e consistem no tratamento mais eficaz para prevenir ou reverter a maioria dos efeitos das picadas de cobra. Eles estão incluídos na Lista de Medicamentos Essenciais da OMS e devem fazer parte de qualquer conjunto de cuidados primários de saúde onde haja ocorrência do agravo.
Sintomas:
Os sintomas do envenenamento por picadas de cobra variam de acordo com o tipo de serpente que provocou o acidente:
– Acidente botrópico (Bothrops e Bothrocophias): Jararaca, jararacuçu, urutu, caiçaca, comboia, cruzeira.
A região da picada apresenta dor e inchaço, às vezes com manchas arroxeadas (edemas e equimose) e sangramento pelos pontos da picada, em gengivas, pele e urina. Pode haver complicações, como grave hemorragia em regiões vitais, infecção e necrose na região da picada, além de insuficiência renal.
– Acidente crotálico (Crotalus): Cascavel, boicininga, marabóia, maracabóia, maracá.
O local da picada muitas vezes não apresenta dor ou lesão evidente, apenas uma sensação de formigamento. Pode ocorrer dificuldade de manter os olhos abertos, com aspecto sonolento (fácies miastênica), visão turva ou dupla, mal-estar, náuseas e cefaleia, acompanhadas por dores musculares generalizadas e urina escura, nos casos mais graves.
– Acidente laquético (Lachesis): Surucucu-pico-de-jaca.
Quadro semelhante ao acidente por jararaca, a picada pela surucucu-pico-de-jaca pode ainda causar dor abdominal, vômitos, diarreia, bradicardia e hipotensão.
– Acidente elapídico (Micrurus e Leptomicrurus): Coral-verdadeira.
O acidente por coral-verdadeira não provoca alteração importante no local da picada. As manifestações do envenenamento caracterizam-se por dor de intensidade variável, visão borrada ou dupla, pálpebras caídas e aspecto sonolento. Óbitos estão relacionados à paralisia dos músculos respiratórios, muitas vezes decorrentes da demora na busca por socorro médico.
Tratamento:
O tratamento com soros antiofídicos específicos para cada tipo de envenenamento é a única terapia eficaz e, quando indicado, deve ser administrado em ambiente hospitalar e sob supervisão médica.
Prevenção de picadas de cobra:
– Usar botas de cano alto ou perneira de couro, botinas e sapatos pode evitar cerca de 75% dos acidentes ofídicos;
– Usar luvas de aparas de couro para manipular folhas secas, montes de lixo, lenha, palhas, etc. Não colocar as mãos em buracos. Cerca de 20% das picadas atingem mãos ou antebraços;
– Serpentes se abrigam em locais quentes, escuros e úmidos. Deve-se ter cuidado ao mexer em pilhas de lenha, palhadas de feijão, milho ou cana, e ao revirar cupinzeiros;
– Evitar acúmulo de lixo, entulho, pedras, tijolos, telhas e madeiras, bem como não deixar mato alto ao redor das casas, pois isso atrai e serve de abrigo para os pequenos animais que servem de alimento às serpentes;
– Limpar paióis e terreiros;
– Fechar buracos de muros e frestas de portas.
É possível consultar, AQUI, a lista dos hospitais de referência para soroterapia de acidentes por animais peçonhentos, separadas por estado, constando as cidades onde estão localizados, nomes dos hospitais, endereços, telefones, Código Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e atendimento disponível para estes acidentes.
As informações disponibilizadas são de responsabilidade da respectiva Secretaria Estadual de Saúde. Em caso de emergência, contatar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192) ou o Corpo de Bombeiros (193).
Também pode ser feito contato por telefone com um dos 36 Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Ciats), que funcionam em hospitais universitários, secretarias estaduais e municipais de saúde e fundações de 19 unidades federadas, por meio do Disque-Intoxicação (08007226001).
Fontes:
Ministério da Saúde
Organização Mundial da Saúde (OMS)
Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)
Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, v. 35, 2026