Poliomielite: assassino silencioso, que apesar de evitável, se espalha novamente após décadas


 

O reaparecimento de doenças até então controladas devido à falta de imunização é um fantasma que assombra os países que registram constante queda na cobertura vacinal. Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que a cobertura global de imunização, incluindo a poliomielite, caiu de 86% em 2019 para 81% em 2021.

Apesar de evitável, essa doença mortal, que costumava paralisar dezenas de milhares de crianças todos os anos, voltou a se espalhar novamente após décadas. Das três cepas de poliovírus selvagem (tipo 1, 2 e 3), o poliovírus selvagem tipo 2 foi erradicado em 1999 e nenhum caso do tipo 3 foi encontrado desde o último relato na Nigéria em novembro de 2012. Entretanto, a manutenção da circulação do tipo 1 em 2020, em dois países, Paquistão e Afeganistão, voltou a causar preocupação. Apesar das enormes dificuldades, os países têm avançado nos seus programas de vacinação e alcançado significativa redução.

O número de casos e a transmissão do poliovírus selvagem nestes países está atualmente em seu nível mais baixo da história, mas, apesar disto, revela a iminência de reintrodução do poliovírus em países onde a doença já foi erradicada. Cerca de uma em cada 200 infecções leva à paralisia irreversível e, entre esses pacientes, até 10% morrem.

As baixas coberturas vacinais no Brasil são preocupantes. Infelizmente a vacina inativada da pólio, que foi introduzida em 2012, completa 10 anos com queda na cobertura vacinal há pelo menos, sete anos. Segundo dados do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI), apenas 47% das crianças com um ano de idade recebeu as três doses da vacina inativada contra a poliomielite. O percentual não atinge os 95% desejados pelo Ministério da Saúde desde 2015. No ano passado, alcançou apenas 70% das crianças.

A propagação do poliovírus representa um risco às pessoas não imunizadas e para tirar essa ameaça, que aterrorizou os pais de todo o mundo durante a primeira metade do século XX, o caminho é a vacinação. A vacina confere quase 100% de proteção às pessoas totalmente imunizadas.

 

A poliomielite, também chamada de pólio ou paralisia infantil, é uma doença viral infecciosa que afeta principalmente crianças pequenas. A transmissão ocorre por contato direto pessoa a pessoa, pela via fecal-oral (mais frequentemente), por objetos, alimentos e água contaminados com fezes de doentes ou portadores, ou pela via oral-oral, por meio de gotículas de secreções da orofaringe (ao falar, tossir ou espirrar).

Falta de saneamento, más condições habitacionais e higiene pessoal precária favorecem a transmissão. O poliovírus se multiplica no intestino e depois pode atingir o sistema nervoso central levando a quadros de meningite, meningoencefalite, encefalomielite. Cerca de 60% das pessoas infectadas desenvolvem a forma paralítica com diversos graus de comprometimento. Nos casos graves, em que acontecem as paralisias musculares, os membros inferiores são os mais atingidos.

Os sintomas mais frequentes são febre, mal-estar, dor de cabeça, de garganta e no corpo, vômitos, diarreia, constipação (prisão de ventre), espasmos, rigidez na nuca e até mesmo meningite. Nas formas mais graves se instala a flacidez muscular, que afeta, em regra, um dos membros inferiores. Não existe tratamento específico, todas as vítimas de contágio devem ser hospitalizadas, recebendo tratamento dos sintomas, de acordo com o quadro clínico do paciente.

As sequelas estão relacionadas com a infecção da medula e do cérebro pelo poliovírus, normalmente são motoras e não tem cura. As principais incluem problemas e dores nas articulações; pé torto, conhecido como pé equino, em que a pessoa não consegue andar porque o calcanhar não encosta no chão; crescimento diferente das pernas, o que faz com que a pessoa manque e incline-se para um lado, causando escoliose; osteoporose; paralisia de uma das pernas; paralisia dos músculos da fala e da deglutição, o que provoca acúmulo de secreções na boca e na garganta; dificuldade de falar; atrofia muscular; hipersensibilidade ao toque.

O combate à poliomielite é considerado uma emergência internacional de saúde pela OMS e  a vacinação é a única forma de prevenção contra a doença.


Fonte:

Sociedade Brasileira de Medicina Tropical